Tradição do Judas divide opiniões
Por Daiana Cerqueira
Todo ano a mesma coisa. Vários locais da cidade de Salvador mantêm viva a tradição da queima do Judas, principalmente nas periferias onde pessoas de todas as idades se divertem com a brincadeira, à meia noite, do sábado de Aleluia. Essa história cultural passada de boca em boca é bem conhecida dos religiosos. Para a evangélica Ana Maria de Jesus, 65 anos, apesar de o povo não ler a bíblia com intensidade como deveria, já fica feliz em saber que pelo menos são sabedores de que Jesus foi traído.
Quando Jesus preparou uma ceia para o povo judeu e seus discípulos a ideia era transmitir o amor e a humildade, através do pão e do vinho que significava para eles, a carne e o sangue. Nessa comemoração, Jesus, que também era judeu deixou seus seguidores cientes de que passaria da vida para a morte, ou seja, deste mundo para o pai celestial. Esse é o momento que ficou considerado como páscoa.
De acordo com as escrituras do Novo Testamento, Judas Iscariotes era um dos doze apóstolos de Jesus e teria o traído com um beijo no rosto como forma de identificá-lo entre os demais aos príncipes dos sacerdotes romanos, recebendo 30 moedas de prata como recompensa. “O que eu beijar é esse; prendei-o”, disse aquele que traiu o Messias. Essas informações são transmitidas de geração em geração, embora muitos não saibam o contexto em que elas surgem. O cristão Antônio Oliveira, 50 anos, por exemplo, acredita que falta muita gente aprofundar o olhar nas palavras tidas como sagradas. Para ele, a queima de Judas é apenas uma invenção popular, um jeito que alguns acharam de fazer festa. “É uma comemoração profana. Não existe lógica em queimar Judas, já que na bíblia não consta nenhuma informação sobre esse episódio”.
A queima simbólica de Judas é, para alguns, motivo de alegria e para outros, reflexão. É o caso da católica fervorosa Marisa dos Santos, 43 anos. Ao participar todos os anos dessa cerimônia de incineração, no Calabetão, bairro onde reside há quase 25 anos, ela acredita que é um momento de refletir, além de ser animado. “Foi algo sim inventado pelos católicos. Mas, não é por causa disso que deve ser ignorado”, ressaltou.
É chegada a hora
Cercada de muita expectativa, a queima do Judas movimenta alguns bairros de Salvador. No Calabetão, não é diferente. A preparação começa desde a sexta-feira santa. Os moradores juntos decidem o local onde será colocado o apóstolo traidor e, em seguida, o nome. Antes, os organizadores realizam o velório, período no qual se escolhe o local ideal para ser queimado. Feito isso, batizam, na maioria das vezes, o boneco com o nome de algum político para protestar contra algumas promessas que não são cumpridas. Em outros locais, o requisito para a seleção do nome se dá por grau de afinidade. O morador que é alvo de muitas críticas no bairro será o tal Judas.
Além disso, antes da malhação do Judas, como é chamado o ato de espancar e queimar o boneco, faz parte também do costume ler um testamento em forma de cordel em alto e bom som. De maneira bem-humorística, os versos são feitos pela própria população para fins de diversão, mas se relata também algumas coisas que ocorrem nos bastidores. “O que está em segredo é contado de maneira engraçada e envolvente, sem causar problemas”. É o que afirma o líder comunitário do Calabetão, Elenilzon Lopes.
A tradição se perdeu
Apesar de a narrativa bíblica apontar Judas como o apóstolo traidor de Cristo há contróversias. Para o professor Chico Araújo, se não houvesse Judas não haveria Jesus Cristo. “Ele era necessário para a história”. É preciso repensar questões como estas, pois o que era simplesmente uma brincadeira pura passou a ganhar outra leitura revestida de sarcasmo. “No contexto atual que estamos vivendo não dá mais para aceitar esse tipo de manifestação. O Judas não é mais o Judas. Ele virou símbolo da personificação, geralmente ligado a figuras políticas, o que pode servir de incentivo à violência, já que a população vive insatisfeita com a situação política nacional ou local”, ressaltou.
Essa não é apenas uma opinião isolada. Derval Dramacho, jornalista há 34 anos, complementa Araújo ao dizer que essa tradição é um portal de incitação à violência, além de ser um jogo político da Igreja Católica, que alimenta essa prática ao ficar devendo um pronunciamento, uma satisfação ao povo. Ele acredita que em algum momento será necessário não só a intervenção da Igreja como também do Estado não para punir, mas sim para fiscalizar a intensidade da brincadeira. “Aparentemente ingênua, essa brincadeira perdeu a tradição desde que passou a ser usada como forma violenta de expressão popular. O Judas de hoje ganhou feições de pessoas que representam o poder público”.
O testamento do Judas fomenta também a violência, uma vez que os personagens são pessoas do próprio local descritos de forma pejorativa. O que leva a comentários desagradáveis entre a vizinhança, podendo ocorrer agressões em menor ou maior grau, de acordo com o estado de nervo que a pessoa se encontra.










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